A escassez mundial de dólares e a capacidade do Banco Central americano de injetar dinheiro na economia

Renan Barros - 23 de abril de 2020

Quando a Ativore foi criada, há cerca de 8 anos atrás, uma das principais razões para focarmos em economias maduras, e mais recentemente, 100% nos Estados Unidos, era para que investidores pudessem proteger seus patrimônios contra choques de economia domésticos e investir com segurança em moeda forte.

Apesar de estarmos vivenciando uma crise sem precedentes em nossa história, acreditamos que nossa tese tem sido validada: as carteiras de private equity imobiliário de nossos clientes sofreram reduções na distribuição de alugueis, mas ainda não realizaram quaisquer perdas de capital, pelo contrário, os ganhos cambiais são consideráveis. Além disso, nenhum banco central do mundo tem demonstrado um poder de reação tão forte e consistente como o FED, do governo americano.

Como disse recentemente Neel Kashkari, presidente do FED de Minneapolis: “há uma quantidade infinita de dinheiro no Federal Reserve e faremos o que for necessário para garantir que haja dinheiro suficiente no sistema bancário .”

Até o momento, o governo americano aprovou $2,8 trilhões em seus diversos programas do pacote de resgate para a economia, o que equivale a mais de 10% do PIB americano, sendo que, quando consideradas todas as linhas de créditos e benefícios fiscais, são mais de $6 trilhões de dólares, com mais recursos ainda por vir.

Diante disso, a pergunta que diversos investidores nos têm feito e que pretendemos explorar ao longo deste artigo, é a seguinte:

 

Como os Estados Unidos conseguem injetar tanto dinheiro na economia e permanecer com sua moeda tão forte ao mesmo tempo?

 

Primeiramente, e de forma simplificada, vale explicar que, para injetar dinheiro na economia, o FED realiza a emissão de títulos públicos, as famosas “treasury bills”, investimento que é considerado o mais seguro do mundo justamente por estar lastreado na capacidade de pagamento da economia norte americana, e consequentemente, com risco de calote baixíssimo.

Como vamos ver a seguir, a demanda por dólares é tão alta globalmente, que os EUA podem emitir trilhões e mais trilhões de dólares desses títulos e, ainda assim, o mercado sempre irá absorvê-los, possibilitando uma capacidade inimaginável do governo americano de financiar seus gastos.

Para ser mais preciso, o espanhol Daniel Lacalle, Ph.D. em economia, que já trabalhou com diversos atuais membros do FED e escritor dos livros  Escape from the Central Bank Trap”, “Life In The Financial Markets” and “The Energy World Is Flat, explicou, em uma recente publicação, que atualmente a escassez global de dólares é estimada em US$ 13 trilhões e que pode chegar até o fim de 2020 em US$ 20 trilhões. Este é o valor quando se soma toda a oferta monetária americana, inclusive as reservas bancárias em posse do FED, e dela subtraímos todos os passivos mundiais denominados em dólar, principalmente nos países emergentes.

Segundo o autor, e de forma resumida, existem diversas razões para a escassez mundial de dólares ser tão alta, dentre algumas delas:

  • centenas de bancos centrais, como o do Brasil, estão tentando copiar o FED, reduzindo os juros básicos da economia. O problema é que, ao adotarem essa estratégia, percebem uma grande saída de capital em busca de dólares, dado que o retorno em relação ao risco de se investir naquele país (que atraia investidores) diminui consideravelmente. Vivenciamos isso no Brasil durante muitos anos na última década, com a SELIC a patamares superiores a 10%a.a. atraindo investidores internacionais. Qual incentivo de se investir em títulos do governo brasileiro quando os retornos ficam tão baixos e, ainda, atrelados ao risco de um país emergente?
  • muitos países estão utilizando suas reservas (títulos do tesouro americano) para combater a crise. Tecnicamente, vende-se títulos do governo americano em troca de dólares, acentuando ainda mais a demanda pela moeda.
  • investidores domésticos e estrangeiros não aceitam incorrer em riscos na moeda local, pois sabem que, em momentos de turbulência, como agora, vários países vivenciam uma acentuada desvalorização cambial. Tamanha desvalorização gera intensos prejuízos para esses investidores, que, ao exportarem seus lucros, perderiam todos os seus ganhos ao converterem a moeda local para o dólar. Consequentemente, investidores só aceitam financiar governos e empresas caso estes emitam títulos em dólares.
  • de acordo com o Banco de Compensações Internacionais (o Banco da Basiléia), a quantidade de títulos de dívida denominados em dólar emitidos por governos e empresas de países europeus, emergentes e pela China dobrou de US$ 30 trilhões para US$ 60 trilhões entre 2008 e 2019. Estes países hoje têm de lidar com mais de US$ 2 trilhões em dívidas que irão vencer nos próximos dois anos.
  • as reservas em ouro não bastam. Se olharmos as reservas das principais economias do mundo, elas representam menos de 2% da oferta monetária. Sendo assim, não há nenhuma moeda “lastreada em ouro” no mundo.

Concluindo

Portanto, com a escassez global de dólares que pode chegar a US$ 20 trilhões até o fim de 2020, que possibilita que o governo americano se financie praticamente sem custo, que outra economia mundial teria poderio fiscal tão grande para combater esta crise?

Em um momento tão sensível quanto o atual, aqueles investidores, principalmente brasileiros, que possuem exposição ao mercado imobiliário americano de forma profissional e segura, possuem uma proteção adicional a seus portfólios, tanto pela robustez e descorrelação de ativos reais em relação ao mercado financeiro, fortemente prejudicado, quanto pelo fato de estarem presentes na economia mais preparada do mundo para lidar com este momento sem precedentes na história.

Como o próprio Daniel Lacalle cita em seu artigo, “Os EUA são os privilegiados – e não dá para copiar”.

 

 

Fonte: Por que há uma escassez de dólares no mundo apesar das maciças injeções do Fed?  https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=3238

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