A crise em 2016 e seu patrimônio – falácias e armadilhas

Pedro Barreto - 31 de dezembro de 2015

O difícil momento político e econômico no Brasil é propício à propagação de previsões, teorias, artigos e até livros cujo principal mérito é explorar “neuroses coletivas” que geram excelentes oportunidades de ganho de curto prazo para uma elite de investidores profissionais. Competir com eles é muito difícil, mas existe uma maneira segura do investidor comum se proteger neste mercado: manter o foco nos fundamentos e mirar o longo prazo.  Para isso é importante desconstruir alguns mitos, entre eles:

O Brasil está afundando e o melhor é vender tudo e sair do país

Países não afundam, passam por crises que podem ter diversas origens, incluindo péssima gestão. Independentemente do debate político, nós achamos que esta crise é cíclica, faz parte de um processo histórico e que, no momento em que ela atingir com força as classes média e baixa, haverá uma virada de mão na política, que deverá impulsionar o próximo ciclo de crescimento. A única incógnita é quando.

Talvez não seja, portanto, o melhor momento para “vender tudo”. Este momento passou, pois aconteceu no auge do boom dos commodities. Quem fizer isto agora, estará provavelmente trocando o pé.

É a hora da renda fixa. A melhor aplicação para ganhar muito dinheiro

Será? Já defendemos aqui várias vezes em nosso blog o contrário. E por uma boa razão: impostos. Se você considerar inflação como um imposto disfarçado sobre o capital investido (que é a realidade), o investidor em renda fixa sofre dois tipos de mordida do leão: a inflação que corrói o capital e o imposto sobre o rendimento. Feitas as contas, com uma inflação na ordem de 10,5% ao ano, e um imposto aproximado de 20% sobre o rendimento, uma aplicação com rendimento bruto nominal de 14,5% ao ano gera um rendimento liquido real de 0,72% ao ano (isso mesmo: ao ano).  Um rendimento similar ao que você consegue hoje em aplicações conservadoras em USD ou em Euro. Com uma grande diferença: a sua aplicação está no Brasil e é denominada em Real.

Portanto o que a renda fixa faz é proteger o seu patrimônio contra a inflação. Se seu plano for gozar de uma feliz aposentadoria a partir dos seus rendimentos de renda fixa, prepare-se para ter o seu padrão de vida significativamente diluído ao longo dos anos. E um dia o dinheiro acaba mesmo, pois, o que você está fazendo é consumindo o seu capital… junto com o seu sócio majoritário: o governo.

É muito arriscado investir em dólar. E está caro.

Reformulemos esta questão para a perspectiva de um americano: “É muito arriscado ter meu patrimônio em dólar. Vou investi-lo todo em Real que está barato”. Parece piada… e é. O investidor Americano que formulasse esta ideia seria certamente tachado de especulador temerário.

Ao contrário do Real que só é aceite no Brasil e perde 10% do seu valor anualmente, o dólar tem conversão universal, é reserva global de valor, tem como lastro a maior economia do mundo e luta contra o risco de deflação (a inflação nos EUA é 0,5% ao ano). Isso põe em perspectiva a posição do investidor brasileiro que evita a diversificação internacional.

Não existem certezas quanto à evolução futura do câmbio e esperar uma cotação ideal para diversificar seu risco cambial pode ser uma estratégia arriscada pois este momento poderá não chegar. O fato é que a desvalorização do Real em 2015 não foi uma anomalia, e sim uma correção na cotação de uma moeda supervalorizada, por diversas razões que não cabem neste artigo.

A orientação, portanto, é: diversifique internacionalmente seu patrimônio.  Se ainda não o fez, comece agora.

As ações estão baratas. É hora de comprar para ganho de capital

É verdade. Convertido em dólar, o Ibovespa vem caindo desde 2010 tendo praticamente retrocedido à cotação de 1997. Veja gráfico a seguir:

Capturar 5

O fato de as ações estarem baratas (há muitas polêmicas) é pouco consolo para quem tinha 40 anos em 1997 e agora conta com estes fundos para se aposentar. Se considerar a inflação em USD, o infeliz aposentado notará que o valor investido em bolsa nesta época e estoicamente conservado em carteira durante 20 anos perdeu cerca de 15% do seu poder de compra. Alguma coisa não bate bem nesta equação de risco retorno. O propalado prêmio de risco da renda variável, foi capturado pelos sortudos (ou iluminados) que conseguiram “bater o mercado”.

Assim, que segurança tem o investidor de que, após várias subidas espetaculares e descidas vertiginosas, esta história não se repita quando ele mais precisar do seu patrimônio? Talvez daqui a 20 anos.

É fato que as ações representam pequenas participações no capital de empresas e que as empresas são o motor das economias. O difícil é avaliar o preço justo destes papéis e com que frequência suas cotações se descolam dos seus fundamentos econômicos. A avaliar pela volatilidade do mercado é provável que isto ocorra com bastante frequência.

Portanto se você tem fé no mercado acionário invista. Mas tenha parcimônia ao apostar seu suado patrimônio neste mercado.

A bolsa está barata – é hora de comprar geração de dividendos

Se nosso investidor de 1997 tivesse tido a clarividência de selecionar uma carteira com distribuição consistente de dividendos (menos do que 20 empresas no Brasil distribuíram dividendos todos os trimestres entre 2012 e 2014) conseguiu chegar à sua aposentadoria sem perder dinheiro, tendo obtido até um pequeno ganho real de cerca de 1% ao ano, além de que agora pode contar com dividendos anuais correspondentes a, aproximadamente, 2,9% do valor investido, antes de impostos.

O difícil é encontrar esta carteira no pequeno universo de empresas que distribuem dividendos com consistência, contar com que estes dividendos se mantenham no futuro.

Imóveis são um mau investimento. Estourou a bolha imobiliária no Brasil

Existe uma classe de analistas e blogueiros que são contra o imobiliário como classe de ativo. Ponto. Sob esta ótica, qualquer evento ou argumento serve para corroborar tal posição: não tem liquidez; ficam obsoletos; deterioram; podem ficar vagos e a mais moderna é: tem risco de bolha imobiliária.

Faz sentido desconsiderar numa carteira a maior classe de ativos do mundo? Afinal, todo os imóveis têm investidores certo? Alguém em sã consciência pode argumentar que todos os imóveis do mundo são “investidos” por pessoas que não sabem o que estão fazendo? E, considerando que alguns destes imóveis têm mais de 200 anos, é razoável argumentar que estes investidores têm vindo deliberadamente a incorrer no mesmo erro há séculos?

O relatório Wealth Report Attitudes Survey 2012 entrevistou 400 private bankers, gestores de fortunas e consultores patrimoniais ao redor do mundo para entender melhor as suas intenções de investimentos. Os resultados, representando a opinião coletiva de 15 mil High Network Wealth Investors com um patrimônio coletivo de quase US$ 1 trilhão revelam que o investimento imobiliário é a opção preferida, com boa margem. Veja tabela abaixo:

Capturar 8

A verdade é a seguinte. O imóvel é um mau investimento se você fizer um mau negócio imobiliário. E isto pode acontecer sim.  Mas o que é mais complicado: avaliar um imóvel ou avaliar uma ação de uma empresa como … a Petrobrás? (ops)

Existem duas variáveis chave na avaliação de um imóvel para investimento: localização e preço. Ambos são intuitivos. Por exemplo, no quesito preço, os imóveis hoje no Brasil ainda estão caros pois as taxas de retorno dos aluguéis estão em cerca de 3,5% ao ano contra 12% há 8 anos atrás. Consideramos 8% de retorno de aluguel um bom ponto de partida para avaliar um mercado. Para isto voltar a acontecer no Brasil, ou os imóveis caem ou os aluguéis sobem, ou ambos.

Para referência, se o mesmo investidor que investiu em bolsa em 1997 e chegou a 2015 sem qualquer ganho em USD, tivesse investido numa boa carteira de imóveis para aluguel, teria, provavelmente, obtido os seguintes resultados antes de impostos em USD:

Capturar 11

(*) Estimativa conservadora em 1997. Diferente da rentabilidade atual: cerca de 3,5% aa.

Veja que este investidor não precisou vender os seus imóveis para gerar liquidez. A rentabilidade histórica do seu aluguel (cerca de 8% ao ano após deduzir todas as despesas, incluindo manutenção e vacância), permitiu a este investidor recuperar a totalidade do caixa investido em cerca de 12 anos. E tanto o imóvel quanto o aluguel (cujo valor provavelmente foi reajustado anualmente pelos índices de preços) continuam lá.

Portanto o que fazer agora com sua carteira imobiliária? Nada. Continue recebendo seu aluguel e, se tiver liquidez procure outros mercados imobiliários com menor risco e melhor rentabilidade de aluguel, como os EUA. Ou espere as taxas de retorno de aluguel subirem no Brasil para investir. Deve demorar, pois os imóveis, salvo raras exceções e, ao contrário dos ativos financeiros, tendem a ser menos propensos a altas e quedas vertiginosas. Os preços, como em qualquer ativo ajustam-se sim. Mas os ciclos tendem a ser bastante mais longos. Não tão atrativo para quem gosta de ter emoções fortes com seu patrimônio.

Comentários

Nenhum comentário para esse post.

Adicionar comentário

[custom-page-js]